Pacientes que tomam cloroquina há anos têm o mesmo risco de pegar Covid-19, diz estudo brasileiro

Pacientes que tomam cloroquina há anos têm o mesmo risco de pegar Covid-19, diz estudo brasileiro
O medicamento é usado em algumas doen√ßas reumatológicas, como lúpus e artrite reumatoide. Estudo brasileiro envolvendo mais de 10 mil pessoas revela que o fato de utilizar a droga por muito tempo n√£o diminui a probabilidade ou previne as formas graves da infec√ß√£o pelo coronavírus. A hidroxicloroquina (uma das vers√Ķes da cloroquina) foi alvo de intensa disputa durante a pandemia da Covid-19

Getty Images via BBC

Apesar de ter ganhado fama durante a pandemia, a cloroquina é uma droga utilizada na medicina h√° quase 100 anos. Criada originalmente como um tratamento contra a mal√°ria, algumas pesquisas realizadas a partir das décadas de 1930 e 40 indicaram que ela também possui uma capacidade de modular o sistema imunológico.

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Durante os últimos 70 anos, ela se tornou uma das drogas mais prescritas na reumatologia, √°rea da medicina voltada às doen√ßas que atingem articula√ß√Ķes, ossos, músculos, tend√Ķes e ligamentos.

Os especialistas costumam indicar o uso crônico desses comprimidos para pacientes com lúpus eritematoso sistêmico e artrite reumatoide, duas doen√ßas em que o sistema imunológico ataca √°reas do próprio corpo, como as articula√ß√Ķes, a pele e os rins.

"Quando come√ßamos a ver as primeiras notícias de que a cloroquina estava sendo testada para conter a pandemia, l√° em mar√ßo de 2020, ficamos muito intrigados. Afinal, nossa experiência nos mostra que o medicamento precisa ser usado por três meses para dar efeito. Ent√£o como é que ele funcionaria t√£o r√°pido na Covid-19, em quest√£o de cinco dias?", questiona o reumatologista Marcelo Pinheiro, da Universidade Federal de S√£o Paulo.

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Foi para sanar essa e outras curiosidades que Pinheiro coordenou um estudo que contou com a participação voluntária de cerca de 400 estudantes de medicina e quase 10 mil voluntários espalhados por 20 centros do Brasil.

O objetivo do trabalho era conferir se os pacientes com doen√ßas reumatológicas que tomavam a cloroquina h√° mais de cinco anos possuíam algum tipo de prote√ß√£o contra a infec√ß√£o pelo coronavírus ou se o quadro seria mais leve e sem maiores complica√ß√Ķes neles.

A conclus√£o do trabalho vai na linha de outras pesquisas que foram feitas nos últimos meses: o uso da cloroquina n√£o mudou em nada o risco de ter a Covid-19 ou desenvolver as formas mais graves, com necessidade de interna√ß√£o ou intuba√ß√£o.

A pesquisa, antecipada em primeira m√£o para a BBC News Brasil, ser√° apresentada nesta sexta-feira (20/11) durante o Congresso Brasileiro de Reumatologia.

Passo a passo do estudo

O trabalho do time de especialistas come√ßou no finalzinho de mar√ßo, com a inclus√£o dos volunt√°rios. No dia 17 de maio, essa etapa foi finalizada com a confirma√ß√£o de que 9.589 pessoas fariam parte da experiência.

Desses, 5.166 indivíduos tinham lúpus, artrite reumatoide ou outras enfermidades reumatológicas e faziam uso da cloroquina todos os dias h√° v√°rios anos.

Os 4.423 restantes n√£o tinham qualquer doen√ßa do tipo e eram familiares ou amigos dos pacientes que moravam na mesma casa. "Selecionamos esse grupo de controle porque eles dividem uma mesma rotina e est√£o expostos a um risco parecido de se infectar com o coronavírus", justifica Pinheiro.

Os milhares de participantes estavam espalhados por 97 cidades brasileiras e eram atendidos em 20 centros especializados em reumatologia.

Para acompanhar tanta gente, Pinheiro montou uma verdadeira força-tarefa. "Tivemos o apoio da Sociedade Brasileira de Reumatologia, da qual faço parte, e contamos com o trabalho de 395 estudantes de medicina", conta.

Essa equipe ficou respons√°vel por ligar para todos os volunt√°rios a cada 15 dias. A proposta era saber como estava a saúde deles, se eles tinham adoecido ou apresentavam algum sintoma sugestivo de Covid-19.

"Além dessa monitoriza√ß√£o, também montamos um call center, em que o paciente poderia telefonar caso estivesse se sentindo mal nesse meio tempo das duas semanas", completa o reumatologista.

Após a coleta dos dados e a an√°lise estatística, os cientistas puderam comparar os dois grupos em rela√ß√£o à maior probabilidade de desenvolver Covid-19: pacientes com doen√ßas reumatológicas que usavam cloroquina versus indivíduos sem essas enfermidades que moravam na mesma residência.

A conclusão do trabalho foi a de que não houve diferença alguma entre as duas turmas. "A cloroquina não protegeu e nem evitou formas graves, que exigem intubação", resume Pinheiro.

Perguntas sem respostas

Apesar de trazer uma série de novidades, a pesquisa brasileira também apresenta limita√ß√Ķes. Para come√ßo de conversa, ela apenas foi apresentada num congresso e ainda precisa ser revisada por cientistas independentes antes da publica√ß√£o num periódico.

"Nós j√° enviamos o trabalho para algumas revistas especializadas e estamos esperando a resposta", diz Pinheiro.

Outro ponto que merece destaque: o estudo n√£o fez exames para verificar se todos os pacientes que relataram sintomas realmente tiveram Covid-19. "Nós usamos os critérios clínicos estabelecidos pelo Ministério da Saúde, pois naquele momento da pandemia os recursos eram escassos e a orienta√ß√£o era fazer testes somente nos quadros mais graves", explica o reumatologista.

Portanto, é possível que uma parcela dos volunt√°rios tenha se infectado com outras doen√ßas respiratórias, como a gripe ou o resfriado. Mas, como a circula√ß√£o do Sars-CoV-2 estava (e est√°) muito intensa no país, é bastante prov√°vel que a maioria deles tenha sido acometido pela Covid-19 mesmo.

Imagem mostram cloroquina manipulada em laboratório

Dirceu Portugal/Fotoarena/Estad√£o Conteúdo

Cloroquina nas doen√ßas reumatológicas

Esse remédio costuma ser usado frequentemente nos casos de lúpus eritematoso sistêmico e, mais ocasionalmente, na artrite reumatoide. "Ele tem um papel razo√°vel de imunomodulador, ou seja, controla o processo inflamatório ocasionado pelo sistema imunológico e alivia incômodos como incha√ßo e dor", explica o reumatologista Rubens Bonfiglioli, professor da Faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

No contexto dessas doen√ßas, a cloroquina é extremamente segura e n√£o provoca grandes efeitos colaterais. Ela é prescrita, inclusive, para mulheres gr√°vidas ou na fase de amamenta√ß√£o.

Seu evento adverso mais preocupante ocorre na vis√£o, pois o acúmulo do f√°rmaco no organismo ao longo do tempo pode afetar algumas estruturas dos globos oculares. "Para evitar isso, basta fazer uma consulta por ano com um oftalmologista", esclarece Bonfiglioli, que também é o presidente do Congresso Brasileiro de Reumatologia deste ano.

O médico tem certeza que a promo√ß√£o da cloroquina contra a Covid-19 afetou os pacientes que realmente precisavam dela.

"Antes, a medica√ß√£o era obtida com facilidade e a um pre√ßo bastante acessível. Com a pandemia e toda a propaganda nacional e internacional que foi feita, ela come√ßou a desaparecer ou ter um pre√ßo exorbitante nas farm√°cias. Nossos pacientes sofreram com isso", relata.

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Cloroquina e Covid-19

"Só no futuro a gente vai conseguir entender realmente o que aconteceu nessa história", analisa o infectologista Alexandre Zavascki, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Em resumo, tudo come√ßou no início da pandemia, quando os cientistas avaliaram se existia alguma droga j√° disponível no mercado que conseguisse inibir o Sars-CoV-2. Nos experimentos em laboratório, com culturas de células, a cloroquina mostrou essa capacidade.

"Logo na sequência, um grupo de especialistas franceses liderados pelo médico Didier Raoult publicou um estudo com 36 pacientes sugerindo que esse remédio poderia ser efetivo na covid-19. O trabalho, porém, apresentava uma série de falhas metodológicas e gerou estranhamento na comunidade acadêmica", lembra Zavascki.

Essas informa√ß√Ķes serviram de gatilho para que líderes mundiais, como o americano Donald Trump e o brasileiro Jair Bolsonaro, passassem a divulgar a cloroquina como a solu√ß√£o para acabar com a pandemia.

No final de outubro, o presidente Bolsonaro chegou a afirmar a alguns apoiadores na frente do Pal√°cio do Planalto que "no Brasil, tomando a cloroquina no início dos sintomas, h√° 100% de cura".

A ciência, no entanto, n√£o corrobora essas alega√ß√Ķes. "J√° temos v√°rios estudos mostrando claramente uma ausência de benefício da cloroquina no contexto da Covid-19. A evidência contr√°ria ao seu uso é particularmente forte nos casos mais graves", afirma Zavascki.

Mesmo nos quadros leves, onde alguns defensores falam em "tratamento precoce", o poder de fogo da cloroquina é muito question√°vel. "Em primeiro lugar, é extremamente difícil definir o que seria um tratamento precoce, uma vez que o Brasil n√£o tem nem estrutura para fazer o diagnóstico com rapidez. H√° uma demora para o desenvolvimento de sintomas e uma espera para obter o resultado dos exames", destaca o infectologista.

O segundo ponto é que, nos pacientes que desenvolvem a forma mais branda da Covid-19, a enfermidade costuma evoluir bem, sem a necessidade de medicamentos específicos. Portanto, se um indivíduo infectado com um quadro leve tomar ou n√£o a cloroquina, na maioria das vezes o resultado final ser√° o mesmo.

Zavascki percebe que, nos últimos meses, a popularidade da cloroquina vem caindo nas consultas. "Era comum casos de pessoas que vinham até nós e exigiam o tratamento com cloroquina, o que era uma situa√ß√£o bastante delicada. Mais recentemente, essa demanda diminuiu bastante", observa.

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