Vacinação contra Covid: três gargalos que países já estão enfrentando

Vacinação contra Covid: três gargalos que países já estão enfrentando
Garantir a vacinação da população não significa apenas assegurar a compra de doses das vacinas já aprovadas por autoridades sanitárias. Falta de frascos para vacina pode ser um gargalo

Reuters

O come√ßo de 2021 est√° sendo marcado pela corrida mundial entre países para vacinar suas popula√ß√Ķes e pôr fim à pandemia.

Israel, Reino Unido, Alemanha, Estados Unidos, China, Rússia, It√°lia, Canad√° s√£o alguns dos países que j√° come√ßaram a imunizar suas popula√ß√Ķes.

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Algumas metas s√£o ambiciosas. Israel quer se tornar o primeiro país a acabar com a Covid-19 por meio de vacina√ß√£o. J√° o governo brit√Ęnico — que aprovou três vacinas contra Covid-19 — anunciou no fim de semana que sua meta é vacinar toda a popula√ß√£o adulta até meados de setembro.

Mas garantir a vacina√ß√£o da popula√ß√£o n√£o significa apenas assegurar a compra de doses das vacinas j√° aprovadas por autoridades sanit√°rias — como os produtos de Oxford-AstraZeneca, Pfizer-BioTech, Moderna, entre outros.

Governantes est√£o enfrentando problemas logísticos para conseguir, em pouco tempo, a vacina√ß√£o em massa.

No Brasil, o governo de S√£o Paulo j√° anunciou que pretende come√ßar a vacinar contra Covid no dia 25 de janeiro, mas até o momento a Anvisa ainda n√£o aprovou nenhum imunizante.

Confira abaixo alguns dos gargalos logísticos que os governos est√£o enfrentando:

1) Frascos

Uma das primeiras preocupa√ß√Ķes é a falta de frascos de vidro para as vacinas.

As vacinas precisam passar por um procedimento chamado "fill and finish" — de preenchimento dos frascos e empacotamento final, para envio aos hospitais e postos de vacina√ß√£o.

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As farmacêuticas que produzem as vacinas n√£o costumam ter a capacidade de cuidar dessa etapa, por isso empresas terceirizadas s√£o contratadas.

Esse é um problema histórico de outras campanhas de vacina√ß√£o. Em 2012, o governo dos EUA passou a investir na cria√ß√£o de redes especializadas nesse processo de "fill and finish", que serviriam para finalizar vacinas em casos de emergências de saúde, como pandemias.

Uma das redes, a Fill Finish Manufacturing Network (FFMN), tem capacidade para finalizar 117 milh√Ķes de doses em um prazo de 12 semanas.

Mas nem todos os países têm essa capacidade. E para complicar a situa√ß√£o, autoridades est√£o alertando para a falta de vidro para os frascos, que é a matéria-prima dessa indústria.

O assunto foi levantado na semana passada pelo vice-chefe médico do governo brit√Ęnico, Jonathan Van-Tam.

"Muitos de vocês j√° sabem que n√£o se trata apenas de produzirmos vacinas. Também precisamos de 'fill and finish', que é um recurso em escassez crônica no mundo hoje."

Na semana passada, o Reino Unido havia produzido 15 milh√Ķes de doses da vacina de Oxford-AstraZeneca, mas apenas 4 milh√Ķes delas haviam passado pelo processo de "fill and finish".

Van-Tam disse que essa escassez pode retardar as metas de vacina√ß√£o do governo brit√Ęnico, mas n√£o deu detalhes sobre o tamanho do problema atual.

Como os contratos entre as farmacêuticas e as empresas de "fill and finish" s√£o sigilosos, n√£o h√° dados públicos para se saber como esse gargalo pode afetar a oferta de vacinas para a popula√ß√£o.

A associa√ß√£o brit√Ęnica de empresas produtoras de vidro, a British Glass, reconheceu que existe o problema afirmou que est√° em busca de uma solu√ß√£o "de longo prazo" para garantir o suprimento de vidros para os frascos de vacina.

A maior produtora de vidro borossilicato — a matéria-prima dos frascos — vem aumentando a sua produ√ß√£o desde que a pandemia come√ßou, antes mesmo de existir uma vacina. A alem√£ Schott abriu no mês passado outra f√°brica na China para atender a demanda mundial pelo seu produto, que dever√° ser usado em 75% das vacinas de Covid no mundo.

2) Vacinadores

Um problema para alguns países é a falta de pessoas para vacinar a popula√ß√£o.

No Reino Unido, as vacinas ficaram prontas antes que as autoridades tivessem um plano para administrar as doses na população.

O país passou a convocar pessoas da √°rea médica — como médicos aposentados e dentistas — para ajudar a vacinar a popula√ß√£o. No entanto, uma série de entraves burocr√°ticos impediram muitos de se voluntariar.

O enfermeiro Gustavo Rodriguez aplica a vacina Sputnik V contra a Covid-19 na médica Estefania Zevrnja em hospital em Avellaneda, na Argentina, em 29 de dezembro de 2020

Natacha Pisarenko/AP

O sistema nacional de saúde exige uma série de documentos e a realiza√ß√£o de dezenas de cursos online para uma pessoa poder ajudar a vacinar.

Entre as exigências est√£o cursos que tratam sobre como lidar com radicaliza√ß√£o ideológica e como proteger crian√ßas — sendo que crian√ßas n√£o receber√£o as vacinas para Covid.

Alguns médicos aposentados que j√° estavam administrando a vacina em lares de idosos n√£o receberam permiss√£o para virarem volunt√°rios no sistema nacional de saúde.

Muitos volunt√°rios acabaram desistindo de ajudar.

Na semana passada, o secret√°rio brit√Ęnico de Saúde, Matt Hancock, prometeu acabar com diversas exigências para volunt√°rios de vacina√ß√£o, como treinamentos em terrorismo e incêndios.

J√° na Espanha, o Conselho Nacional de Enfermagem (CNE) do país afirma que o número de vacinadores é suficiente para lidar com a pandemia. Mas a entidade critica o governo por n√£o coordenar de forma eficiente a campanha e vacina√ß√£o.

"H√° grande disparidade regional na imuniza√ß√£o da popula√ß√£o nesta primeira semana. Um exemplo claro é [a província de] Astúrias, que tem uma propor√ß√£o de 6,5 enfermeiras por mil habitantes e administrou 80% das doses recebidas. Entretanto, Madrid, com 6,7 enfermeiros por mil habitantes, uma propor√ß√£o superior à das Astúrias, utilizou apenas 11,5 das suas doses", afirma o CNE.

A Espanha recentemente convocou o Exército para ajudar a entregar as doses de vacina em lugares mais remotos do país, depois que uma forte nevasca atrapalhou a logística de distribui√ß√£o dos imunizantes.

Diversos países como Alemanha, It√°lia, Reino Unido e Israel est√£o enfrentando um problema adicional: as vacina√ß√Ķes acontecem em um momento de forte aumento no número de hospitaliza√ß√Ķes. As autoridades est√£o tendo que deslocar mais recursos e profissionais para lidar com pacientes de Covid-19 — inclusive com o cancelamento de diversos procedimentos n√£o-urgentes.

3) Seringas

Governos est√£o correndo também para garantir o suprimento de seringas. É o caso do Brasil, que zerou a alíquota de importa√ß√£o de seringas e est√° atualmente em uma queda de bra√ßo com empresas produtoras, após o fracasso de um leil√£o no mês passado. Outros países onde h√° relatos de deficiências no número de seringas s√£o Coreia do Sul, It√°lia e Grécia.

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Na semana passada, um novo problema surgiu envolvendo seringas.

A Agência Europeia de Medicina alertou que muitos países est√£o usando seringas erradas para vacina√ß√£o, que extraem apenas cinco doses dos frascos da Pfizer, e que uma sexta dose est√° sendo desperdi√ßada. A agência também fez um alerta que as sobras de vacina nos frascos n√£o devem ser juntadas para formar uma nova dose completa.

O jornal "The New York Times" noticiou que autoridades americanas ainda n√£o compraram as seringas certas, que permitiriam um aumento de 20% no número de doses disponíveis para sua popula√ß√£o.